sexta-feira, 25 de junho de 2010

Gestação na adolescência

Este assunto ainda é tabu para a sociedade. Foi-me solicitado para conceder uma entrevista para o Jornal Guarulhos Hoje.
Segue a entrevista na íntegra.
  
Guarulhos Hoje: De que forma a TV e a mídia em geral interfere no comportamento sexual dos adolescentes? De que forma você avalia essa situação?

                                                               
Danielle: Não dá para generalizar que a mídia pode interferir negativamente sempre. A questão é que o adolescente está na faixa de transição entre a infância e a fase adulta, o que pode confundir os limites do que é aceitável para a idade ou não. Em diversos horários, a televisão, por exemplo, em novelas, transmite cenas eróticas e sensuais, o que estimulam a sexualidade desses adolescentes. A informação e instrução devem partir da família e propor seus limites, além de encarar de forma natural a sexualidade. Os meios de comunicação poderiam também abrir mais espaço para instrução, prevenção e cuidados a esse respeito, não apenas em alguns poucos momentos, mas expandir sua programação para questões educativas não só sobre sexualidade, mas também sobre comportamento e outros assuntos de interesse público.

Guarulhos Hoje:
O que uma gravidez fora de hora muda na cabeça de um casal de adolescentes? Para a menina é sempre mais complicado ou nem sempre?

Danielle: Existe conflito e sofrimento para todos os envolvidos no caso de uma gravidez precoce.  A gravidez obriga ao adolescente amadurecer precocemente, deixar o papel de filha ou filho e assumir o papel de mãe ou pai. Mas como ser mãe/pai se a própria maturidade emocional, psicológica, financeira e física ainda não foi alcançada? É justamente por isso que a gravidez nesta fase da vida é tão complicada. Para a menina, ocorre a culpa por ter traído a confiança dos pais e o medo de ser desamparada por eles ou pelo namorado, faz com que o conflito seja maior ainda. A mudança do corpo feminino na gravidez, causa, principalmente na adolescente que mal se acostumou com o novo corpo em transformação, vê sua imagem corporal distorcida e muitas vezes desiste de todos os objetivos e sonhos futuros. Alguns casais adolescentes que passam por essa situação, acabam casando-se precocemente e na maioria dos casos acabam separando-se muito rapidamente também. A grande responsabilidade de cuidar das contas no fim do mês, falta de oportunidade de se divertir além do trabalho natural que cuidar de uma criança exige, ajuda o casal a entender que a vida real é bem diferente.

Guarulhos Hoje: Que complicações e riscos que uma mãe adolescente pode ter na gravidez que uma mãe não adolescente tem menos chances de ter?  

Danielle: A gravidez pode gerar complicações psicológicas, por exemplo, a depressão pós-parto, pode ocorrer em qualquer idade, o maior conflito na adolescência quando se depara com uma gravidez indesejada é principalmente o temor que a mudança vai gerar em todo o complexo familiar e na vida deste casal adolescente. O medo de ser abandonado pela família, a falta de instrução e apoio dos pais e do próprio namorado desta garota podem agravar algumas questões psicológicas. Outras questões estão no âmbito do próprio crescimento, desenvolvimento emocional e comportamental, algumas vezes a desistência de continuar estudando, além de complicações durante a gravidez e no parto pelo próprio corpo ainda não estar totalmente preparado e desenvolvido para esta gravidez.

Guarulhos Hoje: E na família dos jovens pais, qual a mudança que acontece? O que os pais desses jovens devem ou não devem fazer em relação à gravidez?

Danielle: Quando a família descobre essa gravidez, o mais importante é o apoio ao adolescente. Fazer o pré-natal desde o início da gestação e receber o auxílio de um profissional de saúde, como por exemplo, psicólogos e assistentes sociais que tranqüilizam e amenizam a ansiedade da adolescente, diminuindo a possibilidade de depressão e outras problemáticas que decorrem dessa gravidez precoce. O diálogo entre pais e filhos não pode restringir-se a falar sobre o uso de preservativo, mas também das conseqüências possíveis do não uso, que envolve a gravidez precoce e muitas doenças venéreas. Os pais precisam preparar-se com o conhecimento a respeito do tema para lidar com esse assunto que para muitas famílias ainda é um tabu, porém faz toda a diferença para o adolescente sentir-se seguro emocionalmente para tomar suas próprias decisões. Depois de engravidar, não adianta a família se desesperar, recriminar ou desamparar esse adolescente, só vai piorar as condições emocionais dele, é nesse momento que ele mais precisa do apoio e compreensão para passar por essa questão de forma mais tranqüila possível.

Guarulhos Hoje:
Qual a melhor maneira de se abordar a questão do sexo com os adolescentes? É em casa, na escola, ou em algum outro ambiente?

Danielle: Cabe ressaltar que em muitos casos de gravidez na adolescência, alega-se que apesar de ter o conhecimento dos métodos contraceptivos, esses adolescentes deixam a cargo da sorte e aproveitam o momento de prazer que a relação sexual proporciona. O diálogo aberto e sem restrições favorece para o amadurecimento e compreensão da realidade por parte desses adolescentes. Portanto, tanto a família tem papel fundamental para a educação sexual dos filhos, quanto a escola também deveria ter um programa de orientação para seus alunos com grupos de discussão e palestras constantes. A conversa que o adolescente tem entre eles, até pode ajudar, mas um sabe tanto quanto o outro sobre o assunto, então se tiver algum adulto que confie e saiba do assunto para poder tirar as suas dúvidas também é um modo de conhecer sobre a sexualidade.

Guarulhos Hoje: Muitos pais se preocupam com a possibilidade da menina engravidar novamente e isso, de acordo com pesquisas, é uma coisa muito comum de acontecer. De que forma os pais devem alertar seus filhos sobre este risco?

Danielle: O alerta a uma segunda gravidez pode ser feita do mesmo modo que na prevenção. Quando isso acontece, ou a adolescente ainda não conseguiu perceber o quanto ela deve ser responsável para cuidar desse bebê, ou quando a personalidade dela é inclinada ao risco, ou sua auto-estima está comprometida, e acaba atribuindo seu sucesso à sorte e seu fracasso às limitações que acredita ter, outras vezes, é para chamar a atenção dos pais. Vale, nestes casos, consultar um profissional adequado para trabalhar esses pontos frágeis na personalidade e no emocional dessa adolescente.

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